{"id":1176,"date":"2012-07-25T19:18:12","date_gmt":"2012-07-25T19:18:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/?page_id=1176"},"modified":"2013-04-24T14:09:27","modified_gmt":"2013-04-24T14:09:27","slug":"escutatorio","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/?page_id=1176","title":{"rendered":"Escutat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p>Sempre vejo anunciados cursos de orat\u00f3ria. Nunca vi anunciado curso de escutat\u00f3ria. Todo mundo quer aprender a falar. Ningu\u00e9m quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutat\u00f3ria. Mas acho que ningu\u00e9m vai se matricular.<a href=\"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/escutar-e-uma-arte.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright\" title=\"escutar-e-uma-arte\" src=\"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/escutar-e-uma-arte-243x300.jpg\" alt=\"\" width=\"243\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>Escutar \u00e9 complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que \u201cn\u00e3o \u00e9 bastante n\u00e3o ser cego para ver as \u00e1rvores e as flores. \u00c9 preciso tamb\u00e9m n\u00e3o ter filosofia nenhuma\u201c. Filosofia \u00e9 um monte de id\u00e9ias, dentro da cabe\u00e7a, sobre como s\u00e3o as coisas. A\u00ed a gente que n\u00e3o \u00e9 cego abre os olhos. Diante de n\u00f3s, fora da cabe\u00e7a, nos campos e matas, est\u00e3o as \u00e1rvores e as flores. Ver \u00e9 colocar dentro da cabe\u00e7a aquilo que existe fora. O cego n\u00e3o v\u00ea porque as janelas dele est\u00e3o fechadas. O que est\u00e1 fora n\u00e3o consegue entrar. A gente n\u00e3o \u00e9 cego. As \u00e1rvores e as flores entram. Mas &#8211; coitadinhas delas &#8211; entram e caem num mar de id\u00e9ias. S\u00e3o misturadas nas palavras da filosofia que mora em n\u00f3s. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Ent\u00e3o, o que vemos n\u00e3o s\u00e3o as \u00e1rvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabe\u00e7a esteja vazia.<\/p>\n<p>Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de \u00f4nibus. Atr\u00e1s, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras \u00e9 comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas s\u00e3o a mulher e a sua vida. Conversar \u00e9 a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi l\u00e1 que a \u00f3pera foi inventada. A alma \u00e9 uma literatura. \u00c9 nisso que se baseia a psican\u00e1lise&#8230;) Voltando ao \u00f4nibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos m\u00e9dicos, dos exames complicados, das inje\u00e7\u00f5es na veia &#8211; a enfermeira nunca acertava -, dos v\u00f4mitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. At\u00e9 que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admira\u00e7\u00e3o, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: \u201cMas isso n\u00e3o \u00e9 nada&#8230;\u201c A segunda iniciou, ent\u00e3o, uma hist\u00f3ria de sofrimentos incomparavelmente mais terr\u00edveis e dignos de uma \u00f3pera que os sofrimentos da primeira.<\/p>\n<p>Parafraseio o Alberto Caeiro: \u201cN\u00e3o \u00e9 bastante ter ouvidos para se ouvir o que \u00e9 dito. \u00c9 preciso tamb\u00e9m que haja sil\u00eancio dentro da alma.\u201c Da\u00ed a dificuldade: a gente n\u00e3o ag\u00fcenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz n\u00e3o fosse digno de descansada considera\u00e7\u00e3o e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que \u00e9 muito melhor. No fundo somos todos iguais \u00e0s duas mulheres do \u00f4nibus. Certo estava Lichtenberg &#8211; citado por Murilo Mendes: \u201cH\u00e1 quem n\u00e3o ou\u00e7a at\u00e9 que lhe cortem as orelhas.\u201c Nossa incapacidade de ouvir \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o mais constante e sutil da nossa arrog\u00e2ncia e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos&#8230;<\/p>\n<p>Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolu\u00e7\u00e3o de 64. Pastor protestante (n\u00e3o \u201cevang\u00e9lico\u201c), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experi\u00eancia com os \u00edndios. As reuni\u00f5es s\u00e3o estranhas. Reunidos os participantes, ningu\u00e9m fala. H\u00e1 um longo, longo sil\u00eancio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em sil\u00eancio, como se estivessem orando. N\u00e3o rezando. Reza \u00e9 falat\u00f3rio para n\u00e3o ouvir. Orando. Abrindo vazios de sil\u00eancio. Expulsando todas as id\u00e9ias estranhas. Tamb\u00e9m para se tocar piano \u00e9 preciso n\u00e3o ter filosofia nenhuma). Todos em sil\u00eancio, \u00e0 espera do pensamento essencial. A\u00ed, de repente, algu\u00e9m fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo sil\u00eancio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos n\u00e3o s\u00e3o meus. S\u00e3o-me estranhos. Comida que \u00e9 preciso digerir. Digerir leva tempo. \u00c9 preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir s\u00e3o duas as possibilidades. Primeira: \u201cFiquei em sil\u00eancio s\u00f3 por delicadeza. Na verdade, n\u00e3o ouvi o que voc\u00ea falou. Enquanto voc\u00ea falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando voc\u00ea terminasse sua (tola) fala. Falo como se voc\u00ea n\u00e3o tivesse falado.\u201c Segunda: \u201cOuvi o que voc\u00ea falou. Mas isso que voc\u00ea falou como novidade eu j\u00e1 pensei h\u00e1 muito tempo. \u00c9 coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que voc\u00ea falou.\u201c Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que \u00e9 pior que uma bofetada. O longo sil\u00eancio quer dizer: \u201cEstou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que voc\u00ea falou.\u201c E assim vai a reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 grupos religiosos cuja liturgia consiste de sil\u00eancio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Su\u00ed\u00e7a, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali est\u00e1vamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas constru\u00e7\u00f5es, n\u00e3o me esque\u00e7o da \u00e1gua no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de sil\u00eancio, n\u00e3o total, mas de uma fala m\u00ednima. O que me deu enorme prazer \u00e0s refei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tinha a obriga\u00e7\u00e3o de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Tamb\u00e9m para comer \u00e9 preciso n\u00e3o ter filosofia. N\u00e3o ter obriga\u00e7\u00e3o de falar \u00e9 uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia tr\u00eas vezes por dia: \u00e0s 7 da manh\u00e3, ao meio-dia e \u00e0s 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de v\u00e1rias cores. Era uma atmosfera de luz morti\u00e7a, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um \u00edcone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em \u201cU\u201c definiam um amplo espa\u00e7o vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande sil\u00eancio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o c\u00e9u e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A for\u00e7a do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os su\u00ed\u00e7os s\u00e3o sempre pontuais. A liturgia n\u00e3o come\u00e7ava. E ningu\u00e9m tomava provid\u00eancias. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ningu\u00e9m que se levantasse para dizer: \u201cMeus irm\u00e3os, vamos cantar o hino&#8230;\u201c Cinco minutos, dez, quinze. S\u00f3 depois de vinte minutos \u00e9 que eu, est\u00fapido, percebi que tudo j\u00e1 se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam l\u00e1 para se alimentar de sil\u00eancio. E eu comecei a me alimentar de sil\u00eancio tamb\u00e9m. N\u00e3o basta o sil\u00eancio de fora. \u00c9 preciso sil\u00eancio dentro. Aus\u00eancia de pensamentos. E a\u00ed, quando se faz o sil\u00eancio dentro, a gente come\u00e7a a ouvir coisas que n\u00e3o ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experi\u00eancia, e se referia a algo que se ouve nos interst\u00edcios das palavras, no lugar onde n\u00e3o h\u00e1 palavras. E m\u00fasica, melodia que n\u00e3o havia e que quando ouvida nos faz chorar. A m\u00fasica acontece no sil\u00eancio. \u00c9 preciso que todos os ru\u00eddos cessem. No sil\u00eancio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em n\u00f3s &#8211; como no poema de Mallarm\u00e9, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma \u00e9 uma catedral submersa. No fundo do mar &#8211; quem faz mergulho sabe &#8211; a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a id\u00e9ia de que, talvez, essa seja a ess\u00eancia da experi\u00eancia religiosa &#8211; quando ficamos mudos, sem fala. A\u00ed, livres dos ru\u00eddos do falat\u00f3rio e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que n\u00e3o havia, que de t\u00e3o linda nos faz chorar. Para mim Deus \u00e9 isto: a beleza que se ouve no sil\u00eancio. Da\u00ed a import\u00e2ncia de saber ouvir os outros: a beleza mora l\u00e1 tamb\u00e9m. Comunh\u00e3o \u00e9 quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto&#8230;<\/p>\n<p>Ruben Alves (O amor que acende a lua, p\u00e1g. 65.)<\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre vejo anunciados cursos de orat\u00f3ria. Nunca vi anunciado curso de escutat\u00f3ria. Todo mundo quer aprender a falar. Ningu\u00e9m quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutat\u00f3ria. Mas acho que ningu\u00e9m vai se matricular. Escutar \u00e9 complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que \u201cn\u00e3o \u00e9 bastante n\u00e3o ser cego para ver [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1432,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1176"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1176"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1443,"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1176\/revisions\/1443"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1432"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.al.pb.leg.br\/elegispb\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}